A cotonicultura brasileira entra em agosto dividida entre duas etapas importantes da safra. Enquanto São Paulo inicia o vazio sanitário neste sábado (1º.08), as máquinas ainda avançam sobre as lavouras dos maiores polos produtores do país. Diferentemente do que ocorre em parte do território paulista, a colheita nacional está longe de terminar.
O primeiro período do vazio sanitário em São Paulo vai de 1º de agosto a 30 de setembro. Nos 109 municípios da região noroeste, onde o algodão permanece mais tempo no campo por causa do calendário de plantio, a medida será cumprida entre 10 de setembro e 10 de novembro.
No restante do país, as datas também acompanham as diferenças regionais da produção. Na Bahia, segundo maior produtor nacional, o vazio está previsto entre 20 de setembro e 20 de novembro. Em Goiás, os períodos começam entre setembro e novembro e terminam entre novembro e janeiro, conforme a região. Mato Grosso, responsável por mais de 70% da produção brasileira, inicia suas janelas sanitárias em outubro.
Essa distribuição mostra por que o vazio do algodão não possui uma única data nacional. O calendário precisa considerar o momento da colheita, o sistema de produção, as condições climáticas e a possibilidade de cultivo de segunda safra em cada região. O princípio, porém, é o mesmo: durante o período estabelecido, não pode haver plantas vivas de algodão capazes de alimentar ou permitir a reprodução do bicudo-do-algodoeiro.
A colheita estava encerrada no Paraná e em fase final em São Paulo no levantamento mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em Mato Grosso, porém, apenas 13,11% da área havia sido colhida até a última semana de julho. O ritmo estava abaixo da média de 20,97% dos últimos cinco anos, reflexo das chuvas registradas em junho, que atrasaram a entrada das máquinas.
Na Bahia, a retirada da fibra já superava 96 mil hectares, pouco mais de 23% da área cultivada. Em Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Piauí, os trabalhos também avançam, mas parte das lavouras ainda se encontra entre a abertura dos capulhos, a maturação e o início da colheita. A expectativa é de aceleração durante agosto, caso o tempo seco predomine nas principais regiões produtoras.
A Conab estima que o Brasil colherá 4,06 milhões de toneladas de algodão em pluma na safra 2025/26, volume apenas 0,5% inferior ao recorde do ciclo anterior. A cultura ocupa cerca de 2,02 milhões de hectares. Mato Grosso e Bahia concentram, juntos, aproximadamente 90% da produção, o que torna o cumprimento coordenado das medidas sanitárias nesses dois estados decisivo para toda a cadeia.
O país é o maior exportador mundial de algodão e deve embarcar 3,38 milhões de toneladas em 2026, o equivalente a mais de 80% da produção estimada. O consumo interno deve alcançar 735 mil toneladas. Nesse cenário, o controle do bicudo não representa apenas uma medida agronômica, mas uma proteção à produtividade, à qualidade da fibra e à competitividade brasileira no mercado internacional.
O bicudo ataca botões florais e maçãs do algodoeiro, estruturas nas quais deposita seus ovos. Como as larvas se desenvolvem dentro da planta, o controle se torna mais difícil depois da infestação. Em áreas com elevada pressão e manejo inadequado, as perdas podem chegar a 80% da produção.
Por ser uma planta perene, o algodoeiro pode rebrotar depois da colheita. Por isso, apenas cortar a parte aérea não garante o cumprimento do vazio. O produtor precisa destruir as soqueiras, controlar as rebrotas e eliminar plantas voluntárias, também conhecidas como tigueras ou guaxas. A atenção deve alcançar ainda carreadores, margens de rodovias, pátios de algodoeiras, armazéns e locais onde sementes possam germinar após o transporte.
A ausência de plantas interrompe a chamada “ponte verde”, reduzindo a disponibilidade de alimento e locais de reprodução para o inseto entre uma safra e outra. A medida integra o Programa Nacional de Controle do Bicudo-do-Algodoeiro, instituído em 2008, e é complementada pelas normas e pelos calendários definidos em cada estado.








