O café arábica encerrou julho cotado a R$ 1.744,18 por saca de 60 quilos, alta de 10,48% no mês. A valorização ocorreu mesmo durante o avanço da colheita de uma safra que pode alcançar o maior volume da história brasileira.
O indicador é calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq). A referência considera o arábica tipo 6, bebida dura para melhor, colocado na cidade de São Paulo.
Em valores, a alta representou aproximadamente R$ 165 por saca durante julho. Para o produtor que ainda tinha 100 sacas disponíveis, o movimento correspondeu a uma valorização bruta de cerca de R$ 16,5 mil. O resultado não considera despesas com armazenagem, juros, transporte, secagem e beneficiamento.
O robusta também avançou, mas em ritmo menor. A cotação terminou o mês em R$ 1.092,56 por saca, aumento de 2,9%. A diferença mostra que o movimento foi mais intenso no arábica, variedade mais sensível às condições climáticas e às alterações na qualidade da bebida.
A alta foi sustentada pela recuperação das cotações internacionais, pelos estoques reduzidos, pela comercialização cautelosa dos produtores e pelas chuvas registradas durante a colheita brasileira. As precipitações atrasaram os trabalhos em algumas regiões e aumentaram o risco de perda de qualidade.
Levantamento do Cepea indica que aproximadamente 30% da safra de arábica ainda estava por colher no fim de julho. Isso significa que cerca de 70% dos trabalhos haviam sido realizados, mas uma parcela importante da produção permanecia nas lavouras justamente durante um período de chuvas fora do padrão tradicional.
O principal risco não está apenas na quantidade colhida. O café que permanece por mais tempo na planta ou cai no chão e entra em contato com a umidade pode perder qualidade. As chuvas também dificultam a secagem nos terreiros e aumentam o risco de fermentação indesejada.
A dimensão das perdas deverá aparecer gradualmente, durante o beneficiamento e a classificação dos lotes. Se houver menor disponibilidade de cafés de bebida superior, a diferença de preço entre os produtos de melhor e pior qualidade poderá aumentar.
Esse cenário exige atenção do produtor na separação dos lotes. Misturar cafés de qualidade diferente pode reduzir o valor de toda a partida. A classificação, a prova de bebida e o controle da umidade ganham importância antes da negociação.
A valorização ocorre em uma temporada de produção elevada. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Brasil colherá 66,7 milhões de sacas em 2026, crescimento de 18% sobre o ano anterior.
A produção de arábica está projetada em 45,8 milhões de sacas, aumento de 28%. O avanço é explicado pela bienalidade positiva, característica da cultura que alterna temporadas de maior e menor produção, além das condições favoráveis observadas durante parte do desenvolvimento das lavouras.
Para o conilon, a estimativa é de 20,9 milhões de sacas, crescimento de apenas 0,8%. A diferença ajuda a explicar por que o mercado de arábica passou a reagir mais fortemente às notícias sobre clima, qualidade e disponibilidade física.
Apesar da produção maior, o Brasil começou a colheita com estoques internos reduzidos. A menor disponibilidade limitou as exportações durante 2025 e nos primeiros meses de 2026. Com a entrada da nova safra, a expectativa é de recuperação dos embarques no segundo semestre.
Minas Gerais, por exemplo, maior produtor de café do País, deve colher 33,4 milhões de sacas em 2026, alta de 29,8% sobre o ciclo anterior. O volume representa metade da produção brasileira, mas as chuvas registradas durante o avanço da colheita em julho atrasaram operações e aumentaram o risco de perda de qualidade nos lotes de arábica que ainda estavam nas lavouras.
O mercado também acompanha os efeitos do El Niño sobre a próxima produção. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) informou que o fenômeno está em fortalecimento e tem 97% de probabilidade de continuar até o início de 2027.
A agência calcula ainda uma possibilidade de 81% de o El Niño alcançar intensidade muito forte entre outubro e dezembro. Esse período coincide com etapas decisivas para os cafezais brasileiros, após a florada e durante a formação inicial dos frutos da safra seguinte.
A presença do El Niño, porém, não significa automaticamente quebra de safra. O efeito dependerá da distribuição das chuvas, das temperaturas e das condições encontradas em cada região. Para o café, será fundamental que ocorram precipitações suficientes depois da florada e que o calor não prejudique o pegamento dos frutos.
Para o produtor, a alta de julho melhora a possibilidade de comercialização, mas não garante novas valorizações. O ingresso de uma safra estimada em 66,7 milhões de sacas pode aumentar a oferta nos próximos meses e pressionar as cotações. Em sentido contrário, perdas de qualidade, estoques baixos e problemas climáticos podem manter o mercado firme.
A decisão entre vender ou armazenar deve considerar o fluxo de caixa da propriedade, os custos financeiros, a qualidade do lote e os compromissos já assumidos. Nos cafés de melhor bebida, a classificação antes da venda pode ser tão importante quanto a escolha do momento da negociação.








