O calor extremo enfrentado pela Europa está mudando até o horário das atividades agrícolas. Na Espanha, vinícolas anteciparam a colheita das uvas e transferiram parte do trabalho para a madrugada, quando as temperaturas são menores. A experiência pode ganhar espaço no Brasil, principalmente na produção de frutas e hortaliças sensíveis ao calor.
Na região de Anoia, na Catalunha, trabalhadores passaram a entrar nos vinhedos por volta das 3 horas. A colheita começou em 22 de julho, várias semanas antes do período tradicional, após sucessivas ondas de calor acelerarem a maturação das uvas.
A mudança não ocorreu apenas para proteger os trabalhadores das temperaturas que chegaram à faixa de 35°C a 45°C. Colher durante a noite também permite que as uvas cheguem mais frias à vinícola, preservando acidez, aromas e outros compostos importantes para a qualidade do vinho.
O calor pode romper a casca da fruta, acelerar a oxidação e favorecer o início da fermentação antes de a uva chegar à unidade de processamento. Temperaturas menores reduzem esses riscos e diminuem a quantidade de energia necessária para resfriar o produto.
A safra espanhola de 2026 começou até 20 dias mais cedo em algumas regiões. Junho foi o segundo mais quente da série histórica do país, com temperatura média 3,2°C acima do padrão registrado entre 1991 e 2020, segundo a Agência Estatal de Meteorologia da Espanha. A chuva correspondeu a apenas 39% do volume normal para o mês.
NOVIDADE – A colheita noturna não surgiu agora. A técnica já era utilizada em áreas quentes da Espanha, da Califórnia e da Austrália, principalmente em vinhedos mecanizados. O que mudou foi a intensidade do calor e a adoção da prática por propriedades que ainda trabalhavam apenas durante o dia.
No Brasil, algumas vinícolas realizam colheitas noturnas desde pelo menos 2016. A técnica ainda é pouco disseminada, mas pode ganhar importância diante do aumento das temperaturas e da expansão da viticultura em regiões tropicais.
A produção brasileira gira em torno de 1,8 milhão de toneladas de uvas por ano, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Aproximadamente 60% desse volume segue para a elaboração de sucos, vinhos e espumantes, enquanto os 40% restantes abastecem o mercado de frutas frescas.
O Rio Grande do Sul concentra a maior produção nacional. Pernambuco aparece entre os líderes graças ao polo irrigado do Vale do São Francisco, onde as condições tropicais permitem colher uvas em diferentes épocas do ano.
Em regiões quentes, a adoção do trabalho noturno pode beneficiar principalmente variedades destinadas à fabricação de vinhos brancos e espumantes. Essas uvas são mais sensíveis à perda de acidez, aromas e frescor quando permanecem expostas a temperaturas elevadas.
A experiência não precisa ficar restrita aos vinhedos. Morango, pequenas frutas, folhas, tomate, manga e melão estão entre as culturas que podem ser colhidas durante a madrugada ou nas primeiras horas da manhã.
Frutas e hortaliças continuam respirando depois de retiradas da planta. Quanto maior a temperatura no momento da colheita, mais acelerados são a perda de água, o amadurecimento e a deterioração. A retirada em horários frescos reduz o chamado calor de campo e facilita a conservação.
A Embrapa recomenda que frutas e hortaliças tenham a temperatura reduzida rapidamente após a colheita. Retirar o produto mais frio não elimina a necessidade de refrigeração, mas pode diminuir o consumo de energia e preservar firmeza, aparência e vida útil.
No morango, por exemplo, orientações técnicas já recomendam a colheita nas primeiras horas do dia. No caso das hortaliças folhosas, temperaturas menores ajudam a limitar a perda de água e a murcha. Para o tomate, a redução da exposição ao calor pode favorecer a firmeza e a conservação durante o transporte.
Manga, melão e uvas de mesa também podem se beneficiar quando existe uma cadeia preparada para retirar rapidamente o produto do campo, realizar a seleção e iniciar o resfriamento. Sem essa estrutura, a mudança de horário produz resultados limitados.
Na cana-de-açúcar e em outras atividades pesadas, o principal benefício estaria na redução do estresse térmico dos trabalhadores. Estudos internacionais indicam que transferir tarefas das horas mais quentes para períodos mais frescos pode recuperar parte da capacidade de trabalho perdida pelo calor.
A adoção, entretanto, não serve para todas as lavouras. Em soja, milho, trigo e outras culturas de grãos, o orvalho pode elevar a umidade da palha e do produto, reduzir a velocidade das colheitadeiras e aumentar o custo de secagem.
No café, o trabalho em horários mais frescos pode diminuir a exposição ao calor, mas frutos molhados pelo orvalho exigem atenção. O processamento precisa começar rapidamente para evitar fermentações indesejadas e perda de qualidade.
O trabalho noturno também demanda iluminação adequada, transporte, treinamento, equipamentos de proteção e protocolos para prevenir acidentes. Na colheita manual, os adicionais trabalhistas podem elevar o custo. A alteração do horário ainda interfere no descanso e na rotina das equipes.
A técnica deve ser planejada de acordo com a cultura, a temperatura, a umidade e o destino da produção. Produtos mais perecíveis e sensíveis ao calor apresentam maior possibilidade de ganho, enquanto grãos e frutos que precisam ser colhidos secos podem enfrentar dificuldades.
O avanço europeu mostra que adaptar os horários de trabalho pode se tornar parte da resposta da agricultura às temperaturas extremas. No Brasil, a prática não seria inteiramente importada, porque já está presente em alguns vinhedos, mas pode ser ampliada e ajustada para outras cadeias.
Mais do que trocar o dia pela noite, a mudança exige integrar colheita, segurança do trabalho, transporte e refrigeração. Quando essas etapas funcionam em conjunto, retirar a produção nas horas mais frescas pode preservar qualidade, reduzir perdas e proteger quem trabalha no campo.








