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Dívidas e juros dificultam acesso ao crédito da nova safra

Imagem: reprodução/ecoagri

O crédito rural contratado entre julho e setembro caiu 30,5% na comparação com o início da safra anterior, em um cenário de endividamento, financiamento caro e maior cautela na concessão de novos empréstimos. Levantamento da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), com dados do Banco Central, aponta R$ 78,89 bilhões em operações nos primeiros três meses da temporada 2026/27, ante R$ 113,49 bilhões no mesmo período de 2025/26.

A retração envolve dificuldades dos dois lados do financiamento. Para quem empresta, aumenta a preocupação com a capacidade de receber. Para quem produz, o custo de uma nova dívida precisa caber em um orçamento que já pode estar comprometido com parcelas de safras anteriores. A combinação ajuda a explicar por que anunciar recursos no Plano Safra não garante que o dinheiro chegue à propriedade.

O endividamento afeta diretamente essa passagem. Uma fazenda pode precisar de recursos para plantar e, ao mesmo tempo, apresentar receitas futuras já comprometidas com financiamentos, fornecedores e antecipações de venda. Nesse caso, a necessidade de crédito não significa capacidade de assumir outro empréstimo.

O Relatório de Estabilidade Financeira publicado pelo Banco Central em maio já apontava aumento dos riscos e perspectiva de pressão sobre o crédito rural. O documento também registra que instituições financeiras associaram eventos como secas, enchentes e tempestades ao crescimento da inadimplência no campo. Ressalva, porém, que o problema tem múltiplas causas e não permite separar quanto decorre exclusivamente do clima.

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Na prática, perdas de produção podem reduzir a receita sem eliminar as despesas assumidas para formar a lavoura. Quando esse desequilíbrio atravessa mais de uma temporada, a dívida antiga passa a disputar espaço com o custeio do novo plantio. O banco avalia esse conjunto ao decidir se concede crédito, quanto libera e quais garantias exige.

Os juros acrescentam outra restrição. Estudo do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) aponta que o custo do financiamento limita o alcance do Plano Safra 2026/27. Mesmo nas linhas com condições preferenciais, os encargos pressionam a capacidade de pagamento e encarecem a produção e a aquisição de máquinas.

Esse mecanismo também pode reduzir a procura por empréstimos. Um produtor que consegue contratar crédito pode adiar investimentos ou diminuir o valor financiado quando considera que o retorno esperado não compensa os encargos. Assim, a queda nas operações pode reunir pedidos recusados, limites menores e decisões de não assumir novas dívidas. Os dados agregados não mostram o peso de cada situação.

Outra parte da explicação está nas alternativas às linhas tradicionais. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), as Cédulas de Produto Rural (CPRs) movimentaram R$ 32,4 bilhões na agricultura empresarial em julho e agosto. Esses títulos permitem captar recursos com obrigação de entrega de produto ou pagamento financeiro, conforme a modalidade.

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Por isso, o recuo do crédito tradicional não equivale, necessariamente, a uma redução da mesma proporção em todo o financiamento da produção. As CPRs ajudam a atender parte da demanda, mas o levantamento disponível não permite afirmar quanto compensaram da queda. Tampouco seus custos e garantias são iguais em todas as operações.

A renegociação das dívidas pode aliviar o caixa, mas não assegura automaticamente outro financiamento. O resultado depende de parcelas compatíveis com a receita esperada e de uma nova avaliação de crédito.

Para o produtor, a análise precisa reunir todas as obrigações da propriedade, inclusive títulos e compromissos com fornecedores. Comparar custos, garantias e vencimentos antes de contratar ajuda a evitar que o dinheiro destinado ao plantio apenas transfira a dificuldade de pagamento para a próxima colheita.

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